Conta da elevação do nível do mar de 850 bilhões de dólares australianos: seguros negam indenização por "ação marinha", governos locais costeiros forçados a pagar do próprio bolso
A primeira avaliação nacional da Austrália mostra que, até 2100, a elevação do nível do mar colocará mais de 267 mil propriedades costeiras e 2 milhões de hectares de terra sob risco de danos por inundações, com perdas totais estimadas em mais de 850 bilhões de dólares australianos. Como as apólices geralmente excluem a "ação marinha", e com os prêmios disparando, os governos locais costeiros estão sendo forçados a arcar do próprio bolso com os custos de adaptação climática e recuperação pós-des
Segundo reportagem da ABC News, uma avaliação — a primeira de abrangência nacional na Austrália — sobre perdas econômicas decorrentes da elevação do nível do mar, conduzida em conjunto pela Universidade de Melbourne, pela Universidade Nacional da Austrália e por uma instituição global de pesquisa em modelagem ambiental e econômica, mostra que, até o fim deste século, mais de 267 mil propriedades costeiras e 2 milhões de hectares de terra em todo o país estarão sujeitos a danos por inundações, com perdas totais estimadas em mais de 850 bilhões de dólares australianos — das quais mais de 274 bilhões em perdas de propriedades e cerca de 580 bilhões em perdas de uso da terra.
O estudo aponta que todos os estados costeiros e o Território do Norte arcarão com faturas enormes. Queensland apresenta o maior risco, com cerca de 93 mil propriedades em perigo e perdas estimadas em 214 bilhões de dólares australianos; a Gold Coast tornou-se a área urbana com maior exposição em todo o país, com perdas econômicas estimadas em 8,44 bilhões de dólares australianos. A Austrália Ocidental enfrenta o maior total de perdas; nas regiões do norte e da costa central de Nova Gales do Sul, as perdas com propriedades devem ser superiores às da Grande Sydney. Victoria é a única jurisdição em que as perdas com propriedades superam as perdas com uso da terra. Tom Kompas, professor de economia ambiental e biossegurança da Universidade de Melbourne e coautor do estudo, descreveu essas conclusões como "alarmantes" e advertiu que as perdas econômicas se agravarão à medida que as emissões de combustíveis fósseis continuarem elevando a temperatura global.
"Nós continuamos aquecendo o planeta... O nível do mar vai continuar subindo, as marés serão mais altas, as marés vivas e as marés extremas serão mais altas, e as tempestades e marés de tempestade também serão mais fortes e até mais frequentes, provocando inundações localizadas", disse Kompas à ABC News.
O estudo também revela um mecanismo crucial: a cada 10 centímetros de elevação do nível do mar, a frequência de eventos de inundação "centenários" triplica. Desde 1900, o nível global do mar já subiu mais de 22 centímetros, e projeta-se que, até 2050, suba mais 14 centímetros — o que significa que apenas nos próximos 25 anos a frequência de inundações costeiras aumentará substancialmente. Andrew Watkins, professor visitante da Universidade Monash e autor de relatórios do Climate Council, afirmou à ABC News que esse efeito combinado já se manifesta: a elevação do nível do mar se soma às marés de tempestade, que empurram a água para o litoral, elevando ainda mais o nível da água; somando-se as ondas, se isso ocorrer na maré alta, "todos os impactos se manifestam simultaneamente".
No ano passado, após a passagem do ciclone tropical Alfred, marés de tempestade e ondas causaram erosão severa no sudeste de Queensland e no nordeste de Nova Gales do Sul. Dados divulgados pelo Conselho de Seguros da Austrália mostram que as indenizações relacionadas ultrapassaram 125 mil pedidos, totalizando 1,36 bilhão de dólares australianos. Johanna Nalau, professora associada de adaptação climática da Universidade Griffith, apontou à ABC News que, após a tempestade, infraestruturas como redes elétricas, transporte e abastecimento de água foram restauradas em semanas ou meses, mas os problemas de erosão costeira continuam até hoje, e os danos às casas de alguns moradores ainda não foram resolvidos.
A questão central em torno dessas perdas é quem paga a conta. O estudo aponta que as apólices de seguro geralmente excluem perdas causadas pela "ação marinha", e em algumas áreas costeiras os prêmios estão subindo acentuadamente. Watkins afirmou, sem rodeios, que para alguns governos locais as despesas com adaptação e recuperação tornaram-se "insuportavelmente altas". Ele disse à ABC News: "Muitos governos locais, na prática, são obrigados a pagar do próprio bolso, tanto para apoiar a construção de resiliência quanto para lidar com os danos causados por tempestades e eventos relacionados ao nível do mar. Precisamos tratar essa questão como tema nacional e elaborar, em conjunto com as comunidades e com os níveis local, estadual e federal, um caminho para avançar."
Cabe esclarecer que o cenário de referência deste estudo baseia-se na hipótese de que as emissões globais de carbono atingirão o pico por volta de 2040 e de que o aquecimento será contido em cerca de 2,7 graus Celsius. As Nações Unidas alertam que, mesmo sob as políticas atuais, o aquecimento global até o fim deste século pode chegar a 2,6 graus Celsius, de modo que as perdas reais podem ser ainda maiores. O cenário de perdas superiores a um trilhão de dólares australianos também mencionado no relatório, por sua vez, baseia-se em um aquecimento superior a 4 graus Celsius, com uso contínuo e crescente de combustíveis fósseis; os pesquisadores consideram que, devido à expansão das energias limpas, esse cenário dificilmente se concretizará.
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