80 dias de espera após teste positivo: por que a lista de espera por endoscopia na Tasmânia é "invisível"
Um paciente com resultado positivo no rastreio de câncer intestinal na Tasmânia foi classificado na categoria mais urgente e, conforme as normas, deveria realizar uma colonoscopia em até 30 dias, mas quase 80 dias depois ainda não havia sido atendido. O departamento de saúde estadual não divulga os dados de espera nem respondeu substancialmente ao caso, evidenciando uma falha de governança que subordina o tratamento dos pacientes a metas administrativas.
Segundo reportagem da Australian Broadcasting Corporation (ABC), um paciente da Tasmânia identificado pelo pseudônimo Tony obteve resultado positivo num kit de rastreio de câncer intestinal em junho deste ano e foi classificado pelos médicos na categoria mais urgente. Conforme as diretrizes clínicas, deveria realizar uma colonoscopia em até 30 dias para confirmar se tem câncer intestinal. No entanto, quase 80 dias depois, ele ainda não teve o procedimento agendado.
O serviço estadual de saúde informou-lhe por telefone que há atualmente cerca de 1.000 pessoas na lista de espera e que ele pode ter de aguardar entre 6 e 12 meses. Em declarações à ABC, Tony descreveu estar num estado de suspensão "entre frustração e ansiedade": "Os meus filhos sabem que o meu teste deu positivo. Também estão nervosos, porque sabem que algo está errado com a amostra do pai, mas basicamente nada pode ser feito."
Diferentemente das cirurgias eletivas, o departamento de saúde da Tasmânia não divulga o número de endoscopias realizadas, a proporção de pacientes atendidos dentro do prazo clinicamente recomendado, nem o tempo médio de espera. Os relatórios anuais, planejamentos de serviço e declarações disponíveis apenas indicam que o estado realizou cerca de 13.500 endoscopias no ano passado e planeja entregar mais de 13.000 no exercício de 2026-2027. O departamento de saúde estadual afirmou que os dados de espera são monitorados por meio de "relatórios operacionais e comitês de governança estadual", mas recusou-se a divulgá-los publicamente nos mesmos moldes das cirurgias eletivas.
Este não é um problema novo. A ABC assinalou que os tempos de espera por cirurgias eletivas e os atrasos além dos prazos clinicamente recomendados são um fenómeno persistente e amplamente documentado na Tasmânia, mas os dados de espera por endoscopias continuam difíceis de encontrar. Para um paciente na categoria mais urgente, isso significa que não há como saber sequer por quanto tempo terá de esperar nem se a situação está a agravar-se.
Preocupado, Tony contactou o deputado local. A parlamentar dos Verdes, Cecily Rosol, levou o caso ao parlamento durante o tempo de perguntas de quinta-feira, questionando a ministra da Saúde, Bridget Archer, sobre se podia confirmar o que o departamento de saúde havia informado a Tony e que medidas seriam adotadas para garantir que pacientes em situação semelhante recebam o procedimento necessário dentro do prazo clinicamente recomendado. Na resposta parlamentar, Archer esquivou-se com a alegação de que "não seria apropriado comentar casos individuais de pacientes" e, em vez disso, sublinhou que o volume de endoscopias no sistema público de saúde se encontra em "máxima histórica".
Na carta enviada a Tony, a linguagem de Archer pouco diferiu da resposta telefónica. Escreveu ela: "Embora o prazo recomendado seja de 30 dias, devido à elevada procura e à priorização dos casos classificados como urgentes, o tempo de espera pode ultrapassar esse limite." Também sugeriu que, caso o quadro se agravasse, Tony regressasse ao médico de família para que este emitisse um novo encaminhamento e iniciasse uma "reavaliação clínica". Tony descreveu toda a carta como "um monte de clichés": "Basicamente, é a mesma coisa que me disseram ao telefone há cinco ou seis semanas — 'só tens de esperar'."
O custo desta falha de governança não é abstrato. O porta-voz da Bowel Cancer Australia e gastroenterologista, professor associado Ding, afirmou que um resultado positivo no rastreio não equivale a um diagnóstico, mas que 90% dos casos de câncer intestinal podem ser curados se detetados precocemente. Um atraso no diagnóstico não só significa um pior prognóstico, como também impõe maior pressão aos hospitais quando o paciente finalmente recorre aos serviços num estado mais complexo e crítico. Em declarações à ABC, disse que o sistema de classificação existe precisamente para que os pacientes recebam tratamento em 30 dias, a fim de evitar "complicações desnecessárias que possam surgir após esse prazo". Uma colonoscopia atempada desempenha uma dupla função: é simultaneamente uma ferramenta de diagnóstico do câncer intestinal e uma medida preventiva, ao identificar e remover lesões pré-cancerosas.
O departamento de saúde da Tasmânia afirmou à ABC que a procura por serviços de endoscopia efetivamente cresceu e que foram implementadas várias medidas de melhoria, incluindo o desenvolvimento de serviços de endoscopia por clínicos gerais em zonas rurais para reforçar a capacidade de atendimento na região noroeste. O governo estadual, por sua vez, mencionou o encaminhamento de pacientes adequados para clínicas privadas. No entanto, para Tony, essas declarações permanecem distantes da espera que enfrenta. Na entrevista, lançou a próxima questão em aberto: "Suponhamos que na próxima semana me agendem o exame e confirmem câncer intestinal — para fazer o tratamento, vou ter de entrar noutra lista de espera?"
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