Após fechamento da USAID, grávidas no Sudão obrigadas a pagar com viagens de três horas o custo do desinvestimento dos EUA
O fechamento da USAID pelo governo dos EUA privou projetos de ajuda humanitária no Sudão, que dependiam de seu financiamento, de um canal essencial. A guerra gera uma crise médica, e a retirada repentina do poder financeiro transfere para os civis o peso do fechamento de clínicas, da escassez de medicamentos e dos riscos de buscar atendimento médico a longa distância.
Em um acampamento em Tenedba, no estado de Gedaref, no Sudão, grávidas que precisam de partos cirúrgicos agora têm de se deslocar até uma cidade a três horas de carro. A BBC, citando a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), informou que, após uma agência humanitária ter se retirado em junho de 2026, este acampamento, que abriga cerca de 18.400 deslocados internos, fechou suas alas de obstetrícia e cirurgia, restando apenas a MSF para manter serviços de emergência. A retirada da ajuda representada pelo fechamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), ordenado pelo governo dos EUA, atinge a população civil em zonas de guerra justamente por esse caminho: os decisores cortam canais de financiamento e os pacientes arcam com atrasos, agravamento de quadros clínicos e até o risco de não receberem socorro a tempo.
Segundo a BBC, após os EUA terem fechado em 2025 a USAID, o órgão responsável pela ajuda externa, dezenas de organizações não conseguiram encontrar financiamento alternativo; muitos dos financiamentos já existentes, mantidos por instituições apoiadas pela USAID, também se esgotaram em junho de 2026. Os EUA continuam sendo o maior doador de ajuda ao Sudão, mas o título de "maior doador" não compensa a ruptura causada pelo fechamento de uma agência executora essencial. Justamente porque grande parte dos serviços de ajuda depende de financiamento americano, essa decisão possui um poder destrutivo muito além do de um ajuste orçamentário comum.
A raiz das necessidades médicas no Sudão é a guerra iniciada em abril de 2023 entre o exército e o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido. Segundo a BBC, essa guerra já causou uma das piores crises humanitárias do mundo, com mais de 33 milhões de pessoas necessitando de assistência médica. O chefe da MSF no Sudão, Mohamed Ibrahim, disse à BBC: "A guerra está alimentando as necessidades do Sudão; os cortes de financiamento estão comprimindo a capacidade de resposta." Ambos os lados da guerra criaram e prolongaram a catástrofe; o governo dos EUA não iniciou essa guerra — mas isso não apaga outra camada de responsabilidade: o governo que detém a maior alavanca de ajuda optou, justamente quando a demanda era gigantesca, por desmontar uma instituição-chave de repasse de recursos, tornando ainda mais difícil a manutenção de uma rede de atendimento já frágil.
Esse dano não é abstrato. A MSF explicou à BBC que seu trabalho no Sudão depende de financiamento privado, mas quando outros serviços de saúde perdem financiamento, clínicas fecham, diminuem os locais que os pacientes podem procurar e a pressão se transfere para as instituições restantes, incluindo as instalações da MSF. O coordenador de emergências da MSF no Oeste do Darfur, Sébastien Traficante, disse à BBC que, após jornadas "mais longas e mais caras", os pacientes frequentemente chegam em estado muito mais grave, e os hospitais ainda podem estar lotados.
Segundo dados da MSF repassados pela BBC, entre janeiro e abril de 2026, as instalações médicas no Darfur Central apoiadas pela MSF tiveram um aumento de 22,5% no número de internações em relação ao mesmo período do ano anterior; somente em maio de 2026, 45 centros de saúde na região deixaram de receber financiamento. A MSF também afirmou que o fechamento de serviços na linha de frente está sobrecarregando enormemente outros hospitais, que as unidades de saúde perdem gradualmente a capacidade de funcionar e que os medicamentos também estão desaparecendo. Quando o financiamento é retirado de uma ponta, as consequências se propagam pela rede de saúde: quando uma clínica para de funcionar, não se perde apenas um ponto de atendimento — significa que outros hospitais ficam mais lotados, que os pacientes viajam distâncias maiores e que os medicamentos limitados são ainda mais diluídos.
A viagem de três horas até o acampamento de Tenedba é justamente a medida mais concreta dessa relação de poder. Quem tomou a decisão de fechar a USAID não precisa procurar um veículo em meio a complicações de parto, nem avaliar se a paciente aguentará chegar à próxima cidade; quem assume esses riscos são as mulheres que perderam suas casas e não dispõem de serviços médicos alternativos. O que o governo dos EUA controla são orçamentos e canais de ajuda; o que os civis sudaneses podem perder é a chance de uma cirurgia a tempo.
O acampamento vizinho de Um Rakuba abrige cerca de 17.000 pessoas, em sua maioria mulheres e crianças. A BBC, citando a MSF, informou que o número de agências humanitárias atuando no local caiu de 35 em 2021 para menos de 10. A representante de assuntos humanitários da MSF no Reino Unido, Liz Harding, alertou à BBC: "Se o apoio não aumentar, mais pacientes enfrentarão jornadas mais longas, menos opções de tratamento e o risco maior de chegarem tarde demais." Esse alerta não prova que a saída de cada agência tenha sido causada diretamente pelo fechamento da USAID pelos EUA, mas deixa claro como, quando os principais países doadores apertam a ajuda, regiões com recursos escassos são as primeiras a perder serviços.
Governos de vários países europeus também estão cortando ajuda internacional. A BBC, citando dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), sediada em Paris, informou que a ajuda internacional global em 2025 caiu 21,3% em relação ao ano anterior. Isso mostra que o desinvestimento tem um contexto político mais amplo, mas não dilui a responsabilidade do governo dos EUA: como maior doador de ajuda ao Sudão, os EUA têm maior capacidade de sustentação, e o fechamento repentino da USAID também provoca um impacto sistêmico mais profundo. Quando o financiamento é altamente concentrado, o maior doador não pode, ao mesmo tempo, acumular influência com base no volume de sua ajuda e descrever a ruptura de serviços causada por sua retirada como uma tendência global alheia a si.
O sistema de saúde também sofre violência direta. A BBC, citando a MSF, informou que, em 2025, 1.620 pessoas morreram no Sudão em ataques contra instalações de saúde, o que representa 82% das mortes por ataques a unidades de saúde no mundo naquele ano. A BBC, reproduzindo dados da ONU, também relatou que mais de 19,5 milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar em nível "crise" e mais de 5 milhões enfrentam fome em nível "emergência". A continuidade dos combates e dos ataques a unidades de saúde explica por que a demanda por atendimento é tão imensa e torna os cortes de financiamento externo ainda mais letais — não mais aceitáveis.
A reportagem da BBC não esclarece as razões políticas específicas do governo dos EUA para fechar a USAID nem estabelece individualmente uma relação causal entre o desinvestimento americano e cada agência fechada no Sudão. O que se pode afirmar é que dezenas de organizações não conseguiram encontrar financiamento alternativo após o fechamento da USAID, que diversos financiamentos já existentes se esgotaram, e que pacientes enfrentam agora jornadas mais longas, menos medicamentos e hospitais mais lotados. No acampamento de Tenedba, o que o governo dos EUA retirou dos registros foi um canal de ajuda; o que as grávidas são forçadas a apostar é se chegarão a tempo à mesa de cirurgia.
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