Com mãos amarradas, salta em rio e foge quatro dias pelos Andes: soldado da Legião Estrangeira Francesa escapa de narcoguerrilha colombiana
Um soldado colombiano servindo na Legião Estrangeira Francesa, mantido em cativeiro por quase um mês pelo EMC — a maior dissidência das FARC —, escapou de forma dramática após subjugar um carcereiro, saltar em um rio com as mãos amarradas e caminhar quatro dias por região montanhosa. O episódio reabre a maior fissura do acordo de paz colombiano de 2016: as facções armadas que se recusaram a assinar seguem se sustentando do narcotráfico e ameaçam o novo presidente de direita.
Segundo fontes militares colombianas citadas pelaAFP, o soldado da Legião Estrangeira Francesa José Melo Chary, que no início de setembro deixou o departamento de Nariño, no sudoeste da Colômbia, realizou sozinho uma série de fugas quase impossíveis após permanecer quase um mês em poder do "Estado-Maior Central" (EMC). A France 24 relatou que o soldado colombiano, na casa dos trinta anos, foi sequestrado por membros do EMC em 6 de agosto, durante uma licença em seu país de origem — viagem que o Ministério da Defesa francês deixou claro não ter sido autorizada.
O EMC é a maior dissidência das FARC que se recusou a aderir ao acordo histórico de paz assinado em 2016 entre o governo colombiano e a extinta guerrilha das FARC. Fontes militares o descrevem como "rebeldes do narcotráfico", que controlam áreas da cordilheira dos Andes onde se acumulam diversas organizações armadas.
Fontes militares disseram que Melo Chary pediu para ir à "floresta" a fim de "fazer suas necessidades", deixou o acampamento, lutou com o guarda, subjugou-o e tomou seu fuzil. Ainda com as mãos amarradas, saltou em um rio, onde conseguiu se livrar das amarras. Em seguida, caminhou por quatro dias em uma região dos Andes controlada por diversas organizações armadas, escondendo-se toda noite atrás de pedras ou na vegetação para escapar das motocicletas de patrulha, até encontrar uma delegacia de polícia e pedir ajuda. Durante a fuga, conseguiu entrar em contato com familiares, que então informaram às forças de segurança sua localização.
"Ele se escondeu em locais abrigados todas as noites. Cada vez que passava uma motocicleta, ele se escondia", disse à AFP essa fonte militar, que pediu para não ser identificada. A fonte acrescentou que o EMC considerava Melo Chary um "peixe grande", e que durante todo o cativeiro seus braços, pernas e pescoço permaneceram amarrados.
Uma foto fornecida pelo Exército francês à AFP mostra Melo Chary com camiseta e calças verde-oliva passando por exames médicos em um hospital, sem ferimentos visíveis. As autoridades informaram em 8 de setembro que seu estado de saúde era bom e que permanecia hospitalizado sob proteção militar, com informações limitadas sobre sua condição atual e paradeiro. Uma mulher que viajava com ele também foi sequestrada e libertada horas depois.
O EMC reivindicou a responsabilidade pelo sequestro, não pediu resgate, mas ameaçou o novo presidente de direita da Colômbia, Abelardo de La Espriella, advertindo-o a não realizar "qualquer operação de resgate". O sequestro é há muito tempo na Colômbia um instrumento habitual usado por organizações armadas para chantagem ou pressão política. Em 2002, a política franco-colombiana Ingrid Betancourt, que então disputava a Presidência, foi sequestrada pelas FARC na selva, tornando-se o símbolo internacional desse flagelo; só foi resgatada em operação militar seis anos depois.
A fuga por um fio de Melo Chary rasgou a ferida nunca cicatrizada do acordo de paz de 2016. Quase dez anos após a assinatura, as dissidências das FARC que se recusam a depor as armas seguem existindo, e o EMC se financia diretamente do tráfico de cocaína — cadeia produtiva que o acordo de paz não conseguiu cortar. O departamento de Nariño, na fronteira da Colômbia com o Equador, é um corredor-chave do cultivo de coca e do tráfico de cocaína, onde a governabilidade estatal há muito colapsou e as organizações armadas construíram, com a receita do narcotráfico, uma estrutura de poder que as forças do Estado dificilmente conseguem abalar. Embora Melo Chary sirva na Legião Estrangeira Francesa, ele é, antes de tudo, um cidadão colombiano de volta à sua terra natal; a mulher que viajava com ele não era, aos olhos dos guerrilheiros, mais do que um alvo aleatório no circuito de sequestros, descartável à vontade. Ao executar o sequestro no momento em que De La Espriella assume o poder, o EMC lança um alerta direto: se este país conseguirá reconquistar o território sequestrado pela economia da droga permanece uma questão em aberto.
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