Poder e política

Alerta chegou um dia antes de 72 mil pessoas invadirem Ceuta — documentos desclassificados questionam responsabilidade do governo de Madrid e papel de Marrocos

Documentos desclassificados do Centro Nacional de Inteligência da Espanha mostram que, no dia anterior à chegada de mais de 72 mil pessoas vindas de Marrocos ao enclave espanhol de Ceuta, o CNI havia emitido um alerta de travessia fronteiriça através do WhatsApp à delegação do governo em Ceuta e informado simultaneamente os serviços de inteligência marroquinos. Diante de informações claras previamente em mãos, o governo de Sánchez nega ter previsto a dimensão da crise, a oposição o acusa de resp

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Documentos desclassificados do Centro Nacional de Inteligência (CNI) da Espanha mostram que, no dia anterior à chegada de mais de 72 mil pessoas vindas de Marrocos ao enclave espanhol de Ceuta, o órgão já havia emitido um alerta claro à delegação de Madrid em Ceuta através de mensagens instantâneas e informado simultaneamente os serviços de inteligência marroquinos. Segundo reportagem da Al Jazeera, um total de 40 documentos foram divulgados nesta quarta-feira, em um contexto em que Ceuta enfrenta protestos contínuos devido ao tratamento governamental da crise.

Segundo reportagem da Al Jazeera, o alerta enviado pelo CNI via WhatsApp em 29 de julho citou conteúdo de dois grupos em redes sociais com um total combinado de cerca de 180 mil seguidores, afirmando que esses grupos estavam conclamando os participantes a "arrombar as cercas amanhã à noite às 20h e entrar pelo mar", acrescentando que "isso é apenas para que você entenda a escala". No mesmo dia, o CNI também informou os serviços de inteligência marroquinos DGST e DGED que os imigrantes planejavam aproveitar o Dia do Trono de Marrocos, em 30 de julho, para entrar em Ceuta escalando as cercas da fronteira ou nadando por desvios.

No entanto, o primeiro-ministro espanhol Sánchez ainda negou nesta quarta-feira que os documentos signifiquem que as autoridades haviam previsto previamente a escala real da crise ocorrida. Ele escreveu na plataforma social X: "A existência desta operação era conhecida por outras agências e estava sob monitoramento, mas ela absolutamente não constitui, nem pode ser interpretada como, uma indicação da escala, natureza ou possibilidade dos eventos que ocorreriam posteriormente." Sánchez também havia declarado anteriormente que não havia provas de que Marrocos estivesse envolvido na crise.

Os documentos também colocam o papel de Marrocos em foco de controvérsia. A Al Jazeera relatou que, em um documento de avaliação divulgado pelo CNI ao meio-dia de 30 de julho, apontou que as autoridades marroquinas "muito provavelmente não encorajaram ativamente esta onda migratória", mas até agora "atuaram com negligência e de forma passiva"; em termos operacionais, "além do destacamento de uma pequena força antimotim, não foi observada nenhuma resposta ativa das autoridades marroquinas diante da situação fora de controle". No entanto, um relatório policial vazado em julho acusou a polícia marroquina de ter demonstrado "completa permissividade" durante o confronto na fronteira. Até o momento, o lado marroquino não fez nenhuma resposta pública aos documentos desclassificados.

Os partidos da oposição no parlamento aproveitaram para lançar questionamentos contundentes a Madri. A porta-voz parlamentar do Partido Popular, de direita, Ester Muñoz, afirmou em coletiva de imprensa: "O governo sabia de tudo o que estava acontecendo... Eles tinham a informação. Eles têm responsabilidade direta pela invasão de Ceuta." Já Sánchez insistiu que os serviços de inteligência de fato monitoravam os desenvolvimentos relevantes, mas não podiam prever a escala dos eventos com base nisso.

No momento da divulgação destes documentos, as consequências humanitárias do incidente continuam. A Al Jazeera, citando dados do governo espanhol, informou que cerca de 5 mil imigrantes e solicitantes de refúgio — incluindo 1,2 mil menores — permanecem retidos em Ceuta mais de um mês após o ocorrido, com alguns ainda sem abrigo; autoridades locais estimam que o número real possa chegar a 10 mil pessoas. Madri prometeu US$ 357 milhões em ajuda.

Como um dos dois enclaves espanhóis no norte da África, a cerca fronteiriça de vários quilômetros entre Ceuta e Marrocos há muito tempo é uma das linhas de fronteira mais sensíveis entre a Europa e a África. O número de pessoas que entraram neste incidente de travessia em larga escala em menos de 48 horas equivale à maior parte da população diária de Ceuta, fazendo com que a capacidade de acolhimento e o sistema de serviços sociais da cidade entrassem em colapso. Os protestos locais contra a forma como o governo lidou com a situação já duram quase dois meses.

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