O relatório de universidade financiado por montadoras pode dar uma roupagem 'científica' à resistência da Alemanha ao banimento de motores a combustão da UE em 2035?
O governador da Baviera, Söder, cita relatório da Universidade Técnica de Munique e pede o fim do plano da UE de eliminar motores a combustão até 2035. Segundo a Deutsche Welle, a universidade dos autores do relatório recebe financiamento institucional da BMW, Audi e Volkswagen. Pesquisa do Conselho Internacional de Transporte Limpo de 2025 mostra que as emissões de carbono no ciclo de vida de veículos elétricos puros são 73% menores do que as de carros a gasolina, muito acima dos 41% apontados
Quando o governador da Baviera, Markus Söder, pediu nas redes sociais o fim do "plano da UE de eliminação de motores a combustão até 2035", ele afirmou que sua posição tinha respaldo "científico". Ele citou um novo relatório da Universidade Técnica de Munique. Segundo a Deutsche Welle, ao questionar a regulamentação de emissões vigente, o relatório também revela uma cadeia de interesses instigante: as principais montadoras que defendem o método de avaliação de ciclo de vida, como BMW, Audi e Volkswagen, são importantes doadoras institucionais da universidade.
O relatório afirma que veículos elétricos puros reduzem em média apenas cerca de 41% das emissões de carbono em comparação com veículos a combustão ao longo de todo o ciclo de vida, criticando a regulamentação da UE por considerar apenas as emissões de escapamento e ignorar fatores como fabricação e fontes de eletricidade, o que constituiria uma suposta "grave falha na estratégia climática". Esse número diverge significativamente dos estudos de diversas instituições independentes.
O pesquisador do Conselho Internacional de Transporte Limpo, Georg Bieker, afirmou em entrevista à Deutsche Welle que a análise da Universidade Técnica de Munique "não traz nenhum insight novo", e que a avaliação de ciclo de vida já é consenso no setor. A pesquisa de 2025 da qual ele participou mostra que, no mercado da UE, as emissões no ciclo de vida de veículos elétricos puros são em média 73% menores do que as de carros a gasolina, podendo chegar a 78% de redução quando se utiliza apenas energia renovável; pesquisas similares da UE e da Agência Internacional de Energia indicam reduções de 60% a 66%, enquanto o Ministério do Meio Ambiente da Alemanha afirma que veículos elétricos puros modernos podem alcançar reduções de até 80%.
A responsável por políticas da Federação Europeia da Indústria Elétrica, Gabriel Clarke, foi mais direta em e-mail: "Seja pela avaliação de ciclo de vida ou pelas emissões de escapamento, os veículos elétricos puros são sempre a tecnologia preferencial para a redução de carbono no setor de transporte rodoviário. A substituição dos veículos a combustão precisa ser acelerada, não adiada."
Os custos ambientais das baterias de fato existem. A extração de 1 tonelada de lítio (suficiente para produzir baterias de cerca de 125 veículos elétricos) requer cerca de 2 milhões de litros de água, e a mineração de minerais críticos como cobalto e lítio está diretamente ligada à destruição de habitats e ao consumo de recursos hídricos. Mas pesquisas do Conselho Internacional de Transporte Limpo mostram simultaneamente que, embora as emissões na fase de produção de veículos elétricos puros sejam cerca de 40% maiores do que as de veículos a combustão, essas emissões adicionais são compensadas após apenas cerca de 17 mil quilômetros rodados. Bieker aponta que "observamos uma tendência de queda nas emissões da produção de baterias"; tomando como exemplo as baterias de lítio-ferro-fosfato, mais baratas e duráveis, suas emissões de produção já são menores do que as das tradicionais baterias ternárias de lítio, e a maioria das baterias pode ser reciclada ao final — enquanto o combustível simplesmente se esgota.
A descarbonização da rede elétrica está ampliando ainda mais as vantagens ambientais dos veículos elétricos. Clarke afirma que a rede elétrica europeia já está mais de 70% descarbonizada, com previsão de alcançar descarbonização quase total até 2040, e que "com o aumento da produção de aço verde e da capacidade de reciclagem de baterias, as vantagens ambientais dos veículos elétricos continuarão a se expandir".
No panorama industrial, a capacidade europeia de produção de baterias ocupa atualmente a segunda posição global, ainda atrás da China. A Comissão Europeia já se comprometeu a fornecer 1,5 bilhão de euros em empréstimos sem juros para dinamizar a indústria local de baterias, reconhecendo que são necessários investimentos mais agressivos na corrida pela eletrificação.
Na visão de Bieker, a direção do mercado não mudará por causa de resistências políticas. "O futuro pertence à eletrificação, independentemente do que pensem os formuladores de políticas europeus ou os fabricantes alemães de automóveis", afirmou ele diretamente. Ele alerta que clima, competitividade e desenvolvimento econômico exigem que a Europa acelere a transição: "não podemos vencer essa corrida evitando-a — precisamos dobrar a aposta na eletrificação, não podemos reduzir o ritmo".
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