Poder e política

Para evitar "ofender o rei Carlos", Forças Armadas de Uganda abandonam Jogos Invictus do príncipe Harry

O comandante-chefe das Forças de Defesa de Uganda, Muhoozi Kainerugaba, anunciou a retirada de Uganda dos Jogos Invictus a serem realizados em Birmingham no próximo ano, invocando a intenção de não ser visto como oposição ao rei britânico Carlos III. A decisão, tomada ao custo da oportunidade de soldados ugandenses lesionados participarem em competições internacionais de reabilitação, reflecte a postura de um antigo país colonizado perante a monarquia da antiga metrópole.

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O comandante-chefe das Forças de Defesa de Uganda, Muhoozi Kainerugaba, anunciou na plataforma social X que Uganda vai abandonar os Jogos Invictus, criados pelo príncipe Harry do Reino Unido. Segundo noticiou a Australian Broadcasting Corporation, Kainerugaba escreveu na sua publicação: "Para não ser interpretado como oposição a Sua Majestade o rei Carlos III do Reino Unido, a quem muito respeitamos, Uganda retira-se, por este meio, dos Jogos Invictus."

Os Jogos Invictus, criados pelo príncipe Harry em 2014, destinam-se a militares em serviço ativo e veteranos feridos ou doentes, e já realizaram sete edições, incluindo a de Sydney em 2018 e a de Vancouver no ano passado. A próxima edição está marcada para o próximo ano, em Birmingham, no Reino Unido. Uganda tinha inicialmente confirmado a sua participação em julho deste ano — quando o príncipe Harry estava em Londres a divulgar o evento. Menos de dois meses depois, Kainerugaba retirou esse compromisso com o pretexto de "evitar ofender o rei".

Kainerugaba é também filho do presidente de Uganda, Yoweri Museveni. Esta condição confere um peso político adicional à declaração que publicou no X: não é apenas o mais alto chefe militar, como está diretamente ligado ao topo da cadeia decisória de Uganda.

O momento escolhido para a declaração é revelador. No final de agosto, o príncipe Harry e a sua esposa Meghan Markle regressaram ao Reino Unido após seis anos de ausência. Imediatamente depois, o rei Carlos enviou uma carta ao governo britânico e a funcionários militares deixando claro que os dois não regressariam a funções reais. Neste contexto, um monarca estrangeiro — embora não lidere o governo britânico nem tenha responsabilidade formal sobre os Jogos — foi tacitamente considerado pelas Forças Armadas ugandesas como detentor de um poder de veto de facto.

Mais notável ainda é o facto de a declaração de retirada não apresentar qualquer justificação relacionada com a organização dos Jogos, o orçamento da participação ou os interesses de reabilitação dos atletas. O comunicado coloca a presumida sensibilidade de um monarca europeu acima do direito de participação dos próprios soldados lesionados de Uganda — militares que poderiam ter beneficiado das redes de reabilitação e do intercâmbio internacional proporcionados pelos Jogos.

Segundo noticiou o site desportivo NBS de Uganda, após o encerramento dos Jogos da Commonwealth em Glasgow, em agosto deste ano, quatro pugilistas ugandeses não regressaram ao país com a restante delegação e permanecem desaparecidos. A notícia não esclarece se existe qualquer relação causal entre este incidente e a decisão de Kainerugaba de retirar a equipa, mas uma diplomacia desportiva que depende da "boa vontade" da antiga potência colonizadora está, por si só, sujeita a ser instrumentalizada em momentos de fricção bilateral.

A declaração de Kainerugaba também deixa por responder várias questões-chave: não há provas públicas de que Carlos III ou a sua Casa Real tenham tomado qualquer posição sobre a participação de Uganda; a suposta "oposição à vontade do rei" é uma interpretação unilateral deste chefe militar. Também não é claro se a decisão de retirada foi tomada pelos canais formais do governo ugandês ou se foi anunciada apenas pelo chefe militar na plataforma X.

O príncipe Harry serviu por duas vezes no Afeganistão e falou publicamente, em 2023, numa série documental da Netflix, sobre as dificuldades psicológicas do regresso do campo de batalha. Os Jogos Invictus sublinham precisamente o percurso de reabilitação e a reintegração social dos participantes. Quando um chefe militar de um país africano subordina a participação dos seus soldados neste evento à reação emocional de um monarca estrangeiro, o certame deixa de ser, em Uganda, uma plataforma de reabilitação para feridos de guerra e transforma-se numa projecção contemporânea das relações coloniais — e o verdadeiro custo é suportado pelos soldados ugandeses lesionados que mais precisariam destes Jogos.

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