Poder e política

Washington tanto bloqueia o petróleo iraniano quanto escolta o abastecimento do mercado; custos da guerra são repassados aos civis

Os Estados Unidos, de um lado, cortam as exportações de petróleo iraniano por meio de um bloqueio e, de outro, orientam embarcações a atravessar o Estreito de Ormuz para manter o abastecimento ao mercado mundial. Essa política de direcionar o fluxo energético com força militar não estabilizou a guerra, mas fez com que instalações petrolíferas sauditas, residentes iemenitas e consumidores globais suportassem riscos cada vez maiores.

0 visualizaçõesEntre para salvar
TRUTH ERA

Washington está executando no Estreito de Ormuz uma ordem energética perigosa e contraditória: o governo dos EUA, por meio do bloqueio, corta as exportações de petróleo do Irã e, ao mesmo tempo, orienta outras embarcações a atravessar o estreito para aumentar o fluxo de供应 ao mercado mundial. Conforme reportagem da Australian Broadcasting Corporation (ABC) citando Reuters e Associated Press, a guerra que os EUA e Israel iniciaram contra o Irã em fevereiro deste ano já entrou no sexto mês. Washington tenta decidir quem pode exportar petróleo e quais embarcações podem passar, mas esse controle militar não trouxe estabilidade; pelo contrário, as frentes de conflito se ampliaram para cidades sauditas, portos no Mar Vermelho e o litoral iemenita.

A ABC informou que os houthis do Iêmen atacaram com drones e mísseis quatro cidades da Arábia Saudita, incluindo uma base aérea em Khamis Mushait e instalações da Saudi Aramco em Abha, Najran e Jizan. As autoridades sauditas afirmaram que os ataques deixaram 73 feridos, entre mulheres e crianças. Os houthis devem ser responsabilizados por esses ataques e pelos danos a civis, mas eles expõem, simultaneamente, uma vulnerabilidade maior criada pela política de bloqueio dos EUA: com o Estreito de Ormuz obstruído, rotas alternativas e as instalações ao longo delas passam a ter maior valor estratégico e se tornam alvos militares mais fáceis.

Esse risco é particularmente concreto em Jizan. A ABC destaca que esse porto no Mar Vermelho abriga grandes refinarias e usinas de geração elétrica, e que as instalações atacadas estão conectadas a uma rota alternativa de transporte que passa pelo Estreito de Bab el-Mandeb. Esse estreito fica na extremidade sul da Península Arábica e liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. Ao mesmo tempo em que Washington comprime as exportações iranianas dentro do Estreito de Ormuz, depende de outras rotas para aliviar a pressão sobre o abastecimento e, na prática, arrasta mais portos, refinarias e cidades costeiras para o mesmo impasse energético e militar.

As informações do local ainda têm limites claros de verificação. A ABC afirmou que não foram obtidas imediatamente imagens do local que pudessem confirmar os ataques após sua ocorrência, e que, na Arábia Saudita, onde a mídia é rigidamente controlada, também não foi possível contatar testemunhas. Imagens de satélite da NASA mostraram uma espessa fumaça negra sobre a refinaria de Jizan e uma fumaça branca subindo de um centro de distribuição de petróleo em Abha; já as imagens divulgadas pelos houthis afirmam mostrar caminhões sauditas atingidos em outro ataque na fronteira. Estas últimas são afirmações de uma parte beligerante e não podem ser tratadas como verificação independente.

A cadeia de represálias também continua a se estender. A ABC, citando mídia controlada pelos houthis, informou que aviões de guerra sauditas em seguida bombardearam quatro vezes a região de Juha, a leste de Sanaa. O porta-voz houthi, Yahya Saree, acusou Riad de escalar a guerra com os bombardeios e disse que os houthis responderiam; já o porta-voz da coalizão liderada pela Arábia Saudita, Turki al-Maliki, afirmou que a coalizão tomará as ações necessárias para dissuadir os houthis. As versões das duas partes se contradizem, mas as consequências suportadas pela população comum já podem ser contabilizadas: segundo o relatório, citando dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), os combates nos últimos três dias na costa oeste do Iêmen obrigaram mais de 18,5 mil pessoas a abandonarem suas casas.

Os preços estão transmitindo o custo da guerra para regiões mais distantes. A ABC informou que os ataques houthis, somados aos confrontos do fim de semana entre Irã e EUA, elevaram o petróleo Brent, na terça-feira, a até US$ 99,46 por barril — o maior nível desde meados de julho — antes de recuar ligeiramente. Teerã também anunciou novas medidas para fechar o Estreito de Ormuz e afirmou que divulgará uma zona marítima de exclusão que se estende desde fora do cordão de bloqueio dos EUA até o interior do golfo. O transporte de energia agora está sendo pressionado simultaneamente por bloqueios, contramedidas e ataques transregionais; isso não é uma flutuação de mercado偶然 e alheia à política, mas o perigo previsível que se segue quando meios militares assumem o controle da circulação de energia.

O governo dos EUA dispõe de maior capacidade de projeção militar e é participante ativo desta guerra e do bloqueio do Estreito de Ormuz. Não pode afirmar que o bloqueio é eficaz quando corta as exportações iranianas e, ao mesmo tempo, descrever as consequências — quando as rotas e instalações de petróleo são atacadas e os preços sobem — como descontrole regional isolado. Washington detém o poder de impor sanções, escoltas e bloqueios; os feridos nas cidades sauditas, os deslocados no litoral iemenita e os consumidores obrigados a pagar mais pela energia não têm poder algum para decidir como esta guerra foi iniciada nem como está sendo escalada.

Comentários

0

Ainda não há comentários. Inicie a discussão.