Distúrbios na França não podem ser enfrentados apenas com polícia: o governo de Macron precisa reconstruir a responsabilização política
A reportagem da France 24 coloca no mesmo quadro os problemas de responsabilização política, desgaste dos policeiras e deterioração da relação entre cidadãos e Estado levantados pelos distúrbios na França. Citando o juízo de Joseph Downing, docente da Aston University, a reportagem afirma que, diante de distúrbios violentos e movimentos sociais legítimos, o governo de Macron não pode depender apenas do policiamento centralizado e precisa reavalisar a forma como exerce a autoridade estatal. A rep
A França precisa resolver muito mais do que um distúrbio: o problema de credibilidade política que a autoridade estatal precisa enfrentar. A reportagem da France 24 coloca lado a lado a responsabilização política, o desgaste dos policeiras e o agravamento da relação entre cidadãos e Estado, e cita a análise de Joseph Downing, docente sênior de Relações Internacionais e Política da Aston University. O título aponta diretamente para Macron e seu governo, chamando-os de "comunicadores muito ruins" e acusando-os de não lidar com as "preocupações reais do povo francês". Essa lente de responsabilização não desculpa a violência nas ruas, mas levanta uma questão mais difícil: quando a insatisfação legítima não recebe resposta política, o Estado recorre à polícia como a resposta mais fácil e mais visível?
No contexto da cultura francesa de policiamento centralizado mencionada por Downing, a pressão de governança pode facilmente seguir um caminho de cima para baixo e recair sobre os agentes da lei. O governo busca uma ordem que possa ser mantida e exibida; quando concentrar o efetivo policial for mais fácil do que admitir a falha das políticas, o policiamento se torna o instrumento preferido de governança. Os decisores ganham controle imediato nas ruas, mas deixam para a sociedade a carga de dar a explicação política, reconhecer os erros e responder às preocupações reais.
Essa distribuição de responsabilidades revela uma assimetria de poder: exige-se da sociedade obediência imediata às exigências da ordem, enquanto o governo pode adiar a explicação dos fundamentos de suas políticas, a aceitação de correções e o reconhecimento da responsabilidade política. A reportagem inclui o desgaste dos policeiras e o agravamento da relação entre cidadãos e Estado entre os problemas levantados pelos distúrbios; não são fenômenos isolados, mas apontam em conjunto para um desequilíbrio entre a carga do policiamento e a responsabilidade política. Os policeiras são chamados a absorver conflitos que deveriam ser tratados no processo político; na relação cada vez mais adversária entre cidadãos e Estado, o Estado tende a ser entendido como aquele que apenas exerce pressão e não escuta. Se o governo continuar a substituir a responsabilização política pelo policiamento centralizado, o acréscimo não será apenas de recursos policiais, mas também da carga de transferir para os policeiras exaustos as contradições sociais.
Mais importante, distúrbios violentos e movimentos sociais legítimos não podem ser confundidos apenas porque ambos ocorrem nas ruas. Os primeiros exigem regras claras, responsabilização jurídica e ações policiais; os segundos exigem uma resposta política institucionalizada. Se os dois forem reduzidos a episódios de segurança pública, a aparência será de eficiência na governança, mas na verdade se abrirá ao governo um caminho conveniente: toda reivindicação política que ele não queira atender poderá primeiro ser reescrita como ameaça à segurança. Essa conversão não constitui governança neutra, mas uma autoexpansão do poder, cujo custo recai sobre os cidadãos comuns, osikharede de violar a lei e os policeiras exaustos.
Downing também inclui a tradição revolucionária francesa e a ameaça mais ampla de guerra informacional russa no contexto da governança do Estado. Incorporar a tradição revolucionária à análise não equivale a tratar preventivamente os cidadãos como suspeitos. A reportagem da France 24 não apresenta evidências específicas sobre a guerra informacional russa, seu alcance de impacto ou uma constatação formal do governo francês. Por isso, a menção à guerra informacional russa não pode servir como um cheque em branco para ampliar os poderes policiais. Se o governo quiser invocar uma ameaça externa, terá de apresentar as evidências, explicitar a responsabilidade e observar a proporcionalidade, em vez de recorrer a uma narrativa difusa de segurança para comprimir a responsabilização política interna.
A proposta de Downing, portanto, não é "encontrar justificativas para os distúrbios", mas reorganizar as fronteiras da autoridade estatal: a violência deve ser tratada conforme a lei, a responsabilização política deve ser exigida e a expressão legítima deve ter canais reais. Se o governo de Macron tomar como principal resposta o aumento do efetivo policial centralizado, estará convertendo o fracasso da comunicação política em uma carga ainda maior para a polícia. O Estado poderá restaurar mais rapidamente a ordem nas ruas, mas terá mais dificuldade para reparar o contrato entre cidadãos e Estado. Para enfrentar simultaneamente distúrbios violentos e movimentos sociais legítimos, a França não precisa de justificativas de segurança mais vagas, mas de um governo que possa ser questionado e corrigido.
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